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Vida de expatriada; por Vanessa Zilio

 

Convidei Vanessa para escrever este texto não somente por nossa amizade, e por considera-la uma das minhas almas gêmeas desta vida, mas por conhecer um pouco de sua história e ter uma imensa admiração pela mulher, mãe e pessoa que ela é.  

Ela é Jornalista formada pela PUC-MG, casada e mãe de dois meninos.

Sobre nossa amizade vou usar as palavras de Veronica Shoffstall:

” Um dia voce aprende que verdadeiras amizades continuam a crescer mesmo a longas distâncias, e o que importa não é o que você tem na vida, mas quem você tem na vida, e que bons amigos são a família que nos permitiram escolher.

Aprende que não temos que mudar de amigos se compreendemos que eles mudam; percebe que seu melhor amigo e você podem fazer qualquer coisa, ou nada, e terem bons momentos juntos.”

“Romper fronteiras pode parecer assustador. Porém, quando compreendemos que os sentimentos são estados de espírito o magnetismo do inexplorável passa a exercer sob nós uma força arrebatadora. A decisão é difícil: ir ou ficar?

Tomamos esta decisão há três anos. Começamos a viver esta mudança de País no momento em que meu esposo vencia os processos avaliativos do seu futuro emprego. Não sabíamos muito sobre o nosso novo destino. Então, passamos noites e mais noites pesquisando. Meu marido foi primeiro. Eu passei três meses com nossos dois filhos preparando nossa mudança. O aprendizado que esta transformação nos trouxe começou com o ato de arrumar as malas. Tivemos que colocar tudo o que acreditávamos ser imprescindível a nossa nova vida em 6 malas de 23 quilos. Após muitas revisões recheadas de desapegos, conseguimos atingir nossa meta. Doei muitas roupas, brinquedos, livros, utensílios domésticos. Vendi nossos carros. Encaixotei algumas coisas.

Chorei com meus filhos a saudade do papai. Segurei a mãozinha deles em cada despedida nestes últimos três meses. Eles se despediram da escola, das professoras, do porteiro, dos amigos. Despediram-se do clube, das atividades extras. Disseram adeus aos domingos na casa dos avós, aos banhos de piscinas com a família nos finais de semana quentes. Acenaram infinitas vezes em direção a nossa casa. Despediram-se dos brinquedos, das bicicletas, dos vizinhos, de seus quartos e de quase tudo que os abraçava e tornava o seu mundo seguro. Eu me despedi não querendo pensar muito sobre o que estava deixando. Minha despedida aconteceu, aos poucos, no choro inesperado durante um banho ou embaixo dos lençóis da minha cama durante as madrugadas. Eu tinha que ser forte e apoiar os meus filhos. Mas, a vida nos prega peças. No nosso último mês vivendo no Brasil, devido a complicações na gestação, minha irmã fez uma cesárea de emergência e minha sobrinha nasceu prematura. Foram dias tão difíceis. Minha sobrinha passou dias na UTI e minha irmã precisava tanto de mim. Confesso que deixá-las dias após toda esta tempestade foi dolorosamente inexplicável. O voo estava marcado para o dia 20 de janeiro de 2016, aniversario de meu pai. Ele ganhou um abraço apertado entre sorrisos e lágrimas e me deixou ir.

Meu marido havia retornado ao Brasil para nos buscar e juntos, de mãos dadas, entramos no avião que nos levaria ao nosso novo lar. Foram 14 horas de voo até o destino final. Quando tocamos o solo rezei e pedi força a Deus. Cobri-me de coragem e decidi viver toda a novidade de coração aberto. Chegamos no inverno e, em poucos dias, nos vimos passando frio no deserto. Moramos em um hotel por um mês. Meu marido se dividia entre os livros e a burocracia que os expatriados têm que enfrentar. Fiz traduções de documentos, exames médicos, carteira de identidade. Buscamos escolas e levamos nossos filhos para avaliações. Uma infinidade de afazeres que extinguiam nossas forças no final de nossos dias.

Os primeiros meses foram difíceis como sabíamos que seriam. A saudade era sufocante. Até a instabilidade da conexão de internet, que tornava as ligações inteligíveis, agredia a minha alma. Mas, a perseverança e a resiliência fazem milagres. Hoje, passados dois anos nas terras do Oriente Médio colhemos os louros de nossas escolhas. Experenciamos muitos sentimentos que ataram, ainda mais, nossos laços. Rendendo-me ao magnetismo do inexplorável, fui transformada por ele. Atualmente, vivo cada momento junto de minha família com intensidade. Aprendi que o amor vive dentro de nós. Ele está impresso em nossos corações e em nossos pensamentos. O amor nos conecta de forma latente àqueles que amamos e nos faz senti-los mesmo a quilômetros de distância.

A vida de expatriado é um eterno aprendizado. É um processo longo que ocorre dentro e fora de nós. Enfrentamos pequenas batalhas diárias ainda. Um das mais valiosas lições é de que os problemas mudam de acordo com as nossas novas coordenadas geográficas e cada canto deste globo terrestre pode nos oferecer um aprendizado único. Nos desapegos diários das coisas, da rigidez cultural e dos pré-conceitos passamos a ver o mundo através de um novo prisma.

Fotografia: Vanessa Zilio

Vanessa Zilio 

Jornalista formada pela PUC-MG e mãe imersa na maternidade, mas infinitamente curiosa ao que acontece ao meu redor. Expatriada há 2 anos. Mergulhando na Maternidade é um projeto que busca disseminar informações úteis à mulheres e homens antenados em questões referentes ao universo mãe/pai e muito mais .

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